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Academic & writer

Estadão

Um olhar a serviço da arte e dos dólares

Biografia de Leo Castelli destaca sua intuição para farejar novos talentos

18 de julho de 2010 | 0h 00

Bandeira milionária. Tela do pintor norte-americano Jasper Johns, hoje o mais caro artista vivo dos EUA e o primeiro a ser descoberto por Leo Castelli, que organizou sua individual em 1958

 

Em sua biografia Leo & His Circle: The Life of Leo Castelli (Alfred A. Knopf, 550 págs., US$ 35), que acaba de ser lançada nos EUA, a escritora argelina Annie Cohen-Solal define o que foi a galeria do maior mito da arte norte-americana do século 20, o marchand Leo Castelli (1907-1999): o zênite, o ponto mais alto do céu artístico nova-iorquino por onde passaram as maiores estrelas da arte, do pop Andy Warhol ao pós-moderno David Salle. Castelli, nascido em Trieste numa família judia, foi para a arte o que Henry Ford representou para a indústria automobilística. Sem ele, por ordem de entrada em cena, artistas como Jasper Johns, Robert Rauschenberg, Frank Stella, Cy Twombly, Andy Warhol, Donald Judd, Christo, Bruce Nauman, Richard Serra, Claes Oldenburg, Julian Schnabel e David Salle talvez não fizessem parte do cenário internacional.

Foi graças a Castelli, senhor do mercado de arte até 1999, ano de sua morte, que os museus e colecionadores guardam hoje o que a arte americana produziu de melhor no século passado desde 1958 – Castelli abriu nesse ano sua galeria em Nova York com uma exposição de Jasper Johns, firmando o marco zero da arte pop nos EUA. No entanto, esse homem com um olho para a arte e outro para os negócios, demonstra Annie Cohen-Solal, nem sempre se revelou um profundo connaisseur. Castelli, aponta a biógrafa, tinha melhores ouvidos: deixou-se guiar por diretores de museus, especialmente o mítico Alfred H. Barr Jr., do Museu de Arte Moderna de Nova York, seu Virgílio no inferno artístico de uma metrópole que então pulsava como embrião do expressionismo abstrato quando Castelli resolveu fixar residência na cidade, em 1941. Como segundo guia, ele adotou o influente crítico Clement Greenberg, pai dos expressionistas abstratos americanos.

Nem sempre Castelli foi bom aluno, diz a biógrafa, ex-adida cultural da Embaixada da França em Nova York e sua amiga de 1989 a 1999, quando o marchand, então com 82 anos, já não ouvia bem e usava um discreto aparelho. Segundo Annie Cohen-Solal, também autora da aclamada biografia de Sartre, o amigo Leo costumava dormir assistindo aos vídeos de Bruce Nauman, o barulhento multimídia que com ele assinou um contrato milionário. Para quem começou sua carreira de galerista aos 50 anos, não havia mesmo tempo e dinheiro a perder.

Filho de banqueiro, mal pisara num museu até os 20 anos. Preferia ler Thomas Mann em Milão, onde estudava Direito sem muita convicção. Tentava também praticar algum esporte, como esqui em Cortina d”Ampezzo, para ver se conquistava alguma garota. Tímido, baixinho e ainda atendendo pelo nome Leo Krausz, seu primeiro contato com a vanguarda histórica europeia se deu na casa de uma família da alta burguesia da Romênia, então exportadora da vanguarda (Tristan Tzara, Brancusi) para toda a Europa. Poderia ter sido uma epifania artística, mas Leo Castelli, então, parecia mais interessado nas apólices de seguro que poderia vender e nas conversas de negócio com seu futuro sogro Mihai Schapira, dono de um império ferroviário. Por cortesia deste, se instalou num belo apartamento no privilegiado subúrbio de Neuilly-sur-Seine, e foi lá, nos anos 1930, que conheceu refugiados da Bauhaus como Kandinski. O pintor russo costumava frequentar sua casa, decorada em estilo art déco por René Drouin, então o mais admirado arquiteto de interiores de Paris, próximo ponto de parada de Leo, onde conheceria Max Ernst, Dalí e todos os extravagantes surrealistas que agitavam a capital francesa.

Todos os passos do marchand pela França parecem ter sido estudados em direção à galeria de arte que abriria na elegante Place Vendôme em sociedade com Drouin, em julho de 1937. A Harper”s Bazaar registrou tudo, especialmente os gafanhotos que circulavam em torno de Max Ernst e Dalí, artistas expositores, transformando a galeria em cenário badalado. Tudo parecia correr bem até seu casamento fracassar, Mussolini invadir a Albânia, Hitler colocar suas patas na Dinamarca e Leo Castelli, há três anos com o novo sobrenome – a italianização foi decretada por Mussolini em 1934 – ser forçado a deixar a Europa e buscar abrigo nos EUA. Ele chegou a Nova York num dia nublado de 1941, procedente do Marrocos. Sua amiga Peggy Guggenheim, casada com Max Ernst, fez as honras da casa. Amigos desde a exposição do pintor em Paris, ele toparia, dois anos mais tarde, na mesma casa da milionária, com uma tela do expressionista abstrato Jackson Pollock, She-Wolf (1943), hoje no MoMA. Seu conhecimento de arte americana, então, era um tanto rudimentar. Achou que Pollock era um surrealista.

Castelli foi para a guerra, virou intérprete e sargento do Exército americano. Voltou em 1946 e, como sempre, ficou sob a proteção do sogro, mudando-se para o palácio de mármore que Mihai Schapira – agora com o nome americanizado para Michael Strate – mantinha na Rua 77, lado leste, em Nova York. Foi lá que Castelli abrigou 55 telas e 29 aquarelas de Kandinski quando a viúva do pintor, Nina, conseguiu recuperá-las em 1947 dos herdeiros do galerista alemão Karl Nierendorf, morto naquele ano. O Midas da arte americana serviu de intermediário e ganhou o direito de vendê-las ao colecionador e galerista Sidney Janis, tornando-se agente póstumo do pintor russo, morto em 1944, e servindo como embaixador da arte europeia nos EUA, isso num momento em que o centro de gravidade da arte mudava para o território americano, por causa do barulho feito pelos expressionistas abstratos.

É nesse ponto que interfere o lado crítico de Annie Cohen-Solal, fazendo a pergunta que todos fariam. Por que Castelli, amigo de Peggy Guggenheim, de Pollock e do holandês Willem De Kooning, não percebeu essa mudança de cenário, entregando-se aos expressionistas abstratos? De certo modo, foi o que ele fez, ao assinar a curadoria de uma mostra que, em 1951, na galeria nova-iorquina de Sidney Janis, reuniu o melhor da arte abstrata francesa e americana, forçando uma comparação entre Pollock e Lanskoy, Kline e Soulages, De Kooning e Dubuffet e Rothko com De Staël. A estratégia deu certo. Castelli agora não era só um comerciante. Era também um curador. E um curador que dava altas festas em sua casa para artistas, colecionadores e diretores de museus, trocando a roupa de Luftmensch, do intelectual sempre com os pés na lua, pelo uniforme de empresário. De admirador de Alfred Barr e aprendiz de Clement Greenberg, Castelli passou a ditar regras no mercado de arte, viajando a Paris para convencer o ex-sócio Drouin a expor os americanos. Ainda num espaço improvisado em Nova York – lado leste, como sempre – ele abriu sua primeira galeria, em 1957, mostrando peças de sua coleção (Mondrian, Picabia, Léger, Giacometti, David Smith).

Sua história, de 1958 em diante, é conhecida. A biografia não acrescenta muito a ela, exceto pela revelação da inveja de Rauschenberg – de Jasper Johns, principalmente – e o esforço que fez Andy Warhol para mostrar seus trabalhos ao marchand. Ao intuir o crepúsculo do expressionismo abstrato e o advento de uma nova ordem pop, que iria dominar o mundo nos anos 1960, o comerciante Castelli, que gostava de dinheiro, poder e sexo – não necessariamente nessa ordem – resolver bancar o rebelde, mesmo correndo o risco de perder Lichtenstein, concorrente mais próximo de Warhol, já contratado por sua galeria. Ninguém fez mais do que ele para acompanhar as novas correntes e movimentos que mudariam a história da arte no século 20, defende sua biógrafa. Difícil discordar dela.  

 
QUEM É?
   ANNIE COHEN-SOLAL, ESCRITORA  
Annie Cohen-Solal, biógrafa de Leo Castelli e de Sartre (Sartre: Uma Vida, LP&M, 1986), nasceu na Argélia durante a guerra da Independência e conheceu o marchand em 1989. Ela também é autora de um ensaio sobre a pintura americana.